Primeiramente, é preciso ter bem claro o que são Fatores na Avaliação Mercadológica de Imóveis.
O que são Fatores na Avaliação Imobiliária
Os fatores são coeficientes de ajuste do preço dos imóveis referenciais que corrigem diferenças relevantes quanto às características desses imóveis em comparação com as características do imóvel que se pretenda determinar o valor.
Esses coeficientes de ajuste são aplicados sobre o valor dos imóveis. O mais comum é, primeiramente, calcular o preço unitário, ou seja, o preço por m² de cada imóvel e aplicam-se os fatores sobre esse preço, para compensar as diferenças existentes entre cada imóvel referencial e o imóvel avaliando.
Cada fator é um coeficiente que pode ser:
- Maior que 1 → quando o imóvel referencial possui uma característica inferior ao avaliando (e seu preço deve ser aumentado para equivaler);
- Menor que 1 → quando o imóvel referencial possui uma característica superior ao avaliando (e seu preço deve ser reduzido para equivaler);
- Igual a 1 → quando não há diferença relevante a ser corrigida.
Após a aplicação dos farores, todos os imóveis referenciais passam a ser considerados como se tivessem as mesmas características do imóvel avaliando, eliminando distorções que poderiam comprometer o resultado.
Para que serve a aplicação de fatores
Aplicam-se fatores na avaliação imobiliária, ajustando os preços da amostra de imóveis referenciais, principalmente para:
- Viabilizar comparações justas entre imóveis diferentes.
- Garantir a precisão na determinação do valor de mercado do imóvel avaliando.
- Atender às normas técnicas de avaliação, que exigem que a base de dados seja homogênea.
- Evitar erros na formação do valor final, decorrentes de diferenças não ajustadas.
Em resumo, sem essa homogeneização, a avaliação se basearia em dados brutos, que podem refletir realidades diferentes e levar a conclusões incorretas. Com essa homogeneização, a amostra se torna tecnicamente confiável, e o resultado, mais preciso e defensável.
Um imóvel mais novo, por exemplo, naturalmente terá um valor de mercado superior a um imóvel mais velho, ainda que sejam idênticos (área e planta). Sem o ajuste, o resultado da avaliação poderia superestimar ou subestimar o valor do bem avaliado, gerando um resultado tecnicamente incorreto e sem respaldo profissional.
Então, para equalizar as características dos imóveis referenciais, como se todos fossem iguais ao imóvel avaliando, realiza-se a homogeneização, a qual pode ser feita pela aplicação de fatores que permitem que os valores apurados sejam comparáveis de forma direta, assegurando o cálculo final fundamentado do valor de mercado do imóvel avaliando.
Resultado da aplicação dos fatores
Após a aplicação dos fatores, cada imóvel referencial da amostra passa a representar uma versão ajustada de si mesmo, equivalente ao imóvel avaliando. Isso garante que a análise seja feita sobre uma base de dados homogênea, permitindo que a determinação do valor de mercado seja fruto de um processo técnico, imparcial e conforme as normas de avaliação.
Como aplicar os fatores de avaliação
- Definir os fatores necessários.
Identifique quais características diferem entre os imóveis referenciais e o imóvel avaliando (use a lista de fatores presente neste material para identificar as características que devem ser consideradas).
- Atribuir valores aos fatores.
Cada fator deve ser estabelecido com base em dados de mercado, estudos técnicos, normas de avaliação ou tabelas de depreciação/valorização. A lista de fatores presente neste material responde a este quesito.
- Aplicar os fatores.
Quando somente um fator deva ser aplicado, basta fazer o cálculo de acordo com o coeficiente de multiplicação desse fator, ou seja, multiplica-se o preço do imóvel referencial pelo fator atribuído para encontrar o potencial preço desse imóvel se ele tivesse a mesma característica do imóvel avaliando.
Quando mais de um fator devam ser aplicados, é preciso tomar cuidado para aplica-los corretamente para que resultado final reflita fielmente o impacto combinado das diferenças entre o imóvel referencial e o imóvel avaliando.
Fórmula para aplicação de vários fatores conjuntamente
Existem diversas literaturas sobre a aplicação dos fatores conjuntamente, distinguindo-se nas seguintes duas concepções matemáticas:
1. Fórmula Aditiva, sendo:

Onde: = Valor ajustado (homogeneizado) do imóvel referencial;
= Valor original do imóvel referencial;
,
,
,
= Fatores de ajuste aplicáveis.
Nesta formulação, cada fator é calculado independentemente, sobre o valor original de modo isolado e sequencial, evitando-se a sobreposição de efeitos.
2. Fórmula Multiplicativa, sendo:

Onde: = Valor ajustado (homogeneizado) do imóvel referencial;
= Valor original do imóvel referencial;
,
,
,
= Fatores de ajuste aplicáveis.
Nesta formulação, cada fator expressa uma variação percentual sobre o valor já ajustado e não sobre o original isoladamente, produzindo um efeito multiplicativo.
Qual fórmula usar?
O objetivo da aplicação da fórmula é que o resultado final reflita fielmente o impacto combinado das diferenças entre o imóvel referencial e o imóvel avaliando.
Ao aplicar vários fatores de homogeneização simultaneamente, surge a necessidade de avaliar qual formulação matemática traduz, com maior precisão, o comportamento dos ajustes de mercado. Para isso, é indispensável examinar três dimensões fundamentais: o aspecto matemático, o aspecto estatístico e o aspecto mercadológico. Cada uma delas possui pressupostos que condicionam a forma como os fatores devem operar quando acumulados.
1. Aspecto Matemático
Do ponto de vista matemático, os fatores representam variações percentuais — aumentos ou reduções proporcionais sobre um valor-base. Percentuais, por sua natureza, podem ser aplicados de duas formas:
- como incrementos lineares, quando se supõe que cada variação atua isoladamente sobre a mesma base; ou
- como incrementos sucessivos, quando cada variação opera sobre o valor já modificado pela anterior.
Os pressupostos matemáticos fundamentais são:
- Percentuais não são grandezas aditivas;
- O efeito percentual depende da base sobre a qual incide;
- A acumulação de variações pode gerar distorções se a forma de combinação não reproduzir sua natureza proporcional.
Na Fórmula Aditiva:
A formulação aditiva interpreta cada fator como uma variação aplicada sobre a mesma base inicial, independentemente dos efeitos anteriores. Assim, as variações são tratadas como somas lineares. Por exemplo, considerando dois fatores:
F₁ = 0,90 (–10%)
F₂ = 1,10 (+10%)
Aplicando a fórmula aditiva, o efeito total é:
1 + (0,90 – 1) + (1,10 – 1) = 1 + (−0,10) + (0,10) = 1
Matematicamente, isso implica que +10% e –10% se anulam perfeitamente, embora sejam variações proporcionais que não atuam sobre a mesma base e que uma poderia afetar a outra.
Na Fórmula Multiplicativa:
Na aplicação sucessiva, cada variação incide sobre o valor já alterado pela anterior, independentemente da ordem dos fatores.
Usando o mesmo exemplo anterior:
0,90 x 1,10 = 0,99 ou 1,10 x 0,90 = 0,99
O resultado matemático revela uma perda residual de 1%, coerente com a natureza não comutativa dos percentuais.
Essa distinção indica que ambas as fórmulas produzem efeitos matemáticos diferentes quando fatores interagem.
2. Aspecto Estatístico
Sob o ponto de vista estatístico, especialmente nas técnicas comparativas, os fatores são utilizados para neutralizar variações atribuídas a atributos específicos dos imóveis. Cada atributo é tratado como uma variável explicativa que produz um efeito proporcional no valor.
Nesse contexto, os pressupostos estatísticos relevantes são:
- A contribuição de cada variável é expressa como coeficiente, não como soma de variações absolutas;
- Ajustes sucessivos devem manter coerência com a estrutura multiplicativa que costuma surgir em modelos hedônicos e regressões logarítmicas;
- A soma direta de deltas percentuais pode levar à superestimação ou subestimação dos efeitos combinados.
Na Fórmula Aditiva:
A soma de deltas assume que todas as variações atuam como efeitos absolutos sobre o valor original. Contudo, nos modelos estatísticos de mercado — especialmente regressões logarítmicas — cada fator é um coeficiente que ajusta o valor de forma relativa.
Ao converter coeficientes em percentuais absolutos, corre-se o risco de distorcer a magnitude dos efeitos combinados, gerando ajustes maiores ou menores do que aqueles estimados pelas relações estatísticas entre os atributos e os preços.
Na Fórmula Multiplicativa:
A multiplicação de fatores reproduz a estrutura típica dos modelos hedônicos log-lineares, onde cada variável introduz uma variação proporcional no preço.
Assim, o impacto combinado de diversas variáveis resulta da multiplicação de seus coeficientes, preservando a coerência com a estrutura estatística dos modelos que fundamentam os ajustes utilizados no mercado.
3. Aspecto Mercadológico
No mercado imobiliário, alterações em atributos (topografia, localização, idade, padrão construtivo etc.) raramente produzem acréscimos fixos. Pelo contrário, a percepção de valor é acumulativa: uma vantagem ou desvantagem incide sobre um valor já influenciado por outras características.
Os pressupostos mercadológicos essenciais são:
- O mercado tende a valorar diferenças de forma proporcional, não linear;
- Pequenas vantagens sucessivas podem gerar um efeito maior que a simples soma das variações;
- Desvantagens acumuladas não reduzem o valor indefinidamente e certamente nunca o tornam negativo;
- A forma de tratamento utilizada deve evitar distorções e manter coerência com a lógica de preço observada.
Na Fórmula Aditiva:
Ao somar percentuais, corre-se o risco de:
- atribuir peso excessivo quando os fatores são negativos;
- reduzir demais o valor quando várias desvantagens coexistem;
- gerar distorções que não correspondem ao comportamento observado no mercado;
- e até mesmo obter valores impossíveis, como valores iguais a zero ou negativos.
Primeiro exemplo, considerando quatro fatores:
. F₁ = 0,90 (–10%)
. F₂ = 0,80 (–20%)
. F₃ = 0,70 (–30%)
. F4 = 0,60 (–40%)
Aplicando a fórmula aditiva, temos:
1 + (0,90 – 1) + (0,80 – 1) + (0,70 – 1) + (0,60 – 1) =
1 + (-0,10) + (-0,20) + (-0,30) + (-0,40) =
1 – 0,10 – 0,20 – 0,30 – 0,40 = 0,00
Segundo exemplo, considerando quatro fatores:
. F₁ = 0,80 (–20%)
. F₂ = 0,70 (–30%)
. F₃ = 0,70 (–30%)
. F4 = 0,70 (–30%)
Aplicando a fórmula aditiva, temos:
1 + (0,80 – 1) + (0,70 – 1) + (0,70 – 1) + (0,70 – 1) =
1 + (-0,20) + (-0,30) + (-0,30) + (-0,30) =
1 – 0,20 – 0,30 – 0,30 – 0,30 = (-0,10)
Veja que dependendo dos valores, a soma pode tornar-se zerada ou até inferior a zero, embora nenhum fator individual represente eliminação total do valor. Essa incongruência revela que a formulação aditiva pode reproduzir situações não verificadas no mercado.
Na Fórmula Multiplicativa:
Considerando os mesmos dois exemplos acima, aplicando a fórmula multiplicativa, temos:
Primeiro exemplo, considerando quatro fatores:
0,90 x 0,80 x 0,70 x 0,60 = 0,3024
Segundo exemplo, considerando quatro fatores:
0,80 x 0,70 x 0,70 x 0,70 = 0,2744
O valor se reduz, mas mantém coerência com a percepção mercadológica de que múltiplas desvantagens reduzem o valor de forma acentuada, porém jamais o anulam por completo. Além disso, vantagens sucessivas aumentam o valor de forma acumulativa, refletindo o comportamento natural da precificação imobiliária, no qual cada característica incide sobre um preço já formado
A partir das análises desses aspectos é possível verificar como cada formulação — aditiva ou multiplicativa — se comporta à luz dos pressupostos apresentados.
A fórmula aditiva:
• Soma percentuais como se eles atuassem isoladamente sobre o valor original, o que não é verdade no mercado;
• Com fatores de depreciação fortes, pode gerar valores impossíveis (incluindo negativos e zero);
• Perde coerência estatística, pois os fatores foram concebidos para serem multiplicadores;
• Viola a proporcionalidade.
A fórmula multiplicativa:
• Representa variações percentuais reais
• Preserva coerência de mercado
• Evita resultados absurdos (nunca produz valor negativo).
• É compatível com a Teoria de Ajustes (Valuation)
• Considera que fator é multiplicador.
a fórmula multiplicativa:
• Representa variações percentuais reais
• Preserva coerência de mercado
• Evita resultados absurdos (nunca produz valor negativo).
• É compatível com a Teoria de Ajustes (Valuation)
• Considera que fator é multiplicador.
CONCLUSÃO
A análise conjunta dos aspectos matemático, estatístico e mercadológico evidencia que as duas formulações produzem efeitos significativamente diferentes ao combinar vários fatores. Uma delas pressupõe que variações percentuais podem ser tratadas como grandezas lineares, somáveis e incidentes sobre a mesma base; a outra reconhece que essas variações são proporcionais, acumulativas e coincidem com a forma como o mercado, a matemática percentual e os modelos estatísticos tratam os efeitos das características sobre o valor.
Diante das diferenças observadas em cada dimensão — especialmente quanto à fidelidade do resultado ao comportamento real do mercado — conclui-se que apenas uma das formulações consegue representar adequadamente o impacto combinado das características dos imóveis e, por isso, constitui a opção tecnicamente consistente a ser adotada no tratamento conjunto dos fatores.
Portanto, a fórmula aditiva é INCORRETA e pode gerar erros sérios, incluindo valores negativos e distorções percentuais.
A FÓRMULA MULTIPLICATIVA É A ÚNICA TECNICAMENTE CORRETA, pois representa ajustes sucessivos de mercado, é coerente com a natureza percentual dos fatores e está alinhada às práticas normativas e mercadológicas da engenharia de avaliações.
A aplicação de fatores no método comparativo deve ser multiplicativa, não aditiva!
Então...
A homogeneização é realizada pela APLICAÇÃO CONJUNTA DE FATORES DE AJUSTE sobre cada valor amostral, segundo a seguinte fórmula:

Onde: = Valor ajustado (homogeneizado) do imóvel referencial;
= Valor original do imóvel referencial;
,
,
,
= Fatores de ajuste aplicáveis, expressos como coeficientes numéricos; cada fator representa um acréscimo ou decréscimo isolado sobre o valor original.
Para tornar o conceito claro, segue um exemplo de cálculo:
Considere um imóvel referencial com valor original (Vo) de R$400.000,00. Suponha que, em relação ao imóvel avaliando, foram identificadas 3 características que exigem ajuste, cujos fatores são:
- F1 = 1,10 (o imóvel referencial deve ter o preço aumentado, pois possui qualidade inferior à do avaliando nesta característica 1);
- F2 = 0,95 (o imóvel referencial deve ter o preço diminuído, pois possui característica superior à do avaliando nesta característica 2);
- F3 = 1,05 (o imóvel referencial deve ter o preço aumentado, pois possui vantagem sobre o imóvel avaliando nesta característica 3).
Aplicando a fórmula:

Substituindo os valores:


Portanto, após a aplicação dos 3 fatores, o preço do imóvel referencial foi ajustado e passa a representar uma versão homogeneizada equivalente ao imóvel avaliando, com valor ajustado de R$ 438.900,00.
Essa abordagem acumulativa garante que os fatores sejam considerado conjuntamente, evitando somas absurdas (como uma soma de reduções acima de 100%) e garante que o resultado final nunca seja negativo, desde que todos os fatores sejam positivos (>0). Essa sobreposição de efeitos permite uma homogeneização precisa e tecnicamente fundamentada dos valores da amostra.
Exemplo de homogeneização de uma amostra de imóveis:
Segue uma tabela ilustrativa, construída para mostrar passo a passo a aplicação de múltiplos fatores em uma amostra de 3 imóveis referenciais, tornando o conceito mais visual e didático:
| Imóvel | Valor Original (R$) | Fator 1 | Fator 2 | Fator 3 | Cálculo da Aplicação dos fatores | Valor Ajustado (R$) |
| R1 | 400.000,00 | 1,1 | 0,95 | 1,05 | 400.000 × 0,10 x 0,05 x 0,05 | 438.900,00 |
| R2 | 350.000,00 | 1,05 | 1 | 0,95 | 350.000 × 0,05 × 0,00 × 0,05 | 349.125,00 |
| R3 | 420.000,00 | 1 | 0,9 | 1,1 | 420.000 × 0,00 x 0,10 x 0,10 | 415.800,00 |
